Antes de minha vó falecer, há quase um ano, fui a sua casa visitá-la, numa tarde ensolarada. Aquele dia seria o nosso último realmente juntas e, apesar de sua idade já avançada e da sua saúde frágil, eu nem pensava na hipótese dela vir a nos deixar naquele mês.
Conversamos
por horas. Ela chorou e se emocionou várias vezes e, nesse dia, conheci a
pessoa sensível que vivia por detrás da leonina que levava o signo até no nome:
Alice Leão. Ela sempre foi a força em pessoa. Deixou uma vida toda pra trás pra
viver um amor e era a mulher mais bem resolvida que eu havia conhecido. Pelo
menos era o que eu achava até aquele momento.
Então,
naquela tarde de sexta-feira, pude concluir que todos nós temos os nossos
arrependimentos. Entendi também que podemos viver bem mesmo trazendo na bagagem
inúmeras feridas, derrotas e erros.
E,
enquanto ela falava, pude perceber o quanto tudo era tão claro pra ela, como se
aqueles acontecimentos tivessem ocorrido há poucos dias. Mais de oitenta anos
de vida e ela ainda não tinha superado... Como? Eu me indagava.
De
repente, então, ela parou. Havia acabado. O silêncio tomou conta de nós.
Deixei-a a sós com seus pensamentos até que ela se virou pra mim e sorriu, como
se agradecesse.
Ainda
com o rosto molhado de lágrimas ergueu a xícara de chá e eu
repeti seu movimento. " Brindaremos a liberdade. Hoje me despeço dessa
culpa e assumo a responsabilidade pelas minhas escolhas." E saiu da sala
quase levitando.
Havia
se livrado do peso que carregou por tantos anos e, dias depois, foi em paz.
Disso,
ficou apenas a falta que sinto. A saudade do que podíamos ter feito, de tudo
que podíamos ter dividido e das tardes que tive oportunidade de ir vê-la e dei
prioridade aos meus afazeres.
Vivi
muitos meses com a culpa, mas agora a transformei em responsabilidade. E, como
minha vó querida, tentarei viver bem, carregando minha coleção de feridas,
derrotas e erros.
E,
quem sabe, quando eu tiver meus oitenta anos, também possa ter a oportunidade
de ser ouvida de verdade e transformar minhas culpas em asas... Nem que seja
apenas por uma tarde, uma única tarde ensolarada de sexta-feira.
Feliz
aniversário, vovó!!!

Conte sempre comigo para te escutar, conversar e Almar. Adoro vc, amiga, comadre e cunhada. Bjos.
ResponderExcluirA recíproca é mais que verdadeira. Obrigada querido. Bj
ResponderExcluirQue texto lindo, Tati!
ResponderExcluirSugiro "Almar" na próxima edição do Houaiss. Bjo
Rsrsrsrs. Obrigada Patrícia! Já pensei nisso diversas vezes. Quem sabe um dia, não é? Bj
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