quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Livre, leve e solta!


Antes de minha vó falecer, há quase um ano, fui a sua casa visitá-la, numa tarde ensolarada. Aquele dia seria o nosso último realmente juntas e, apesar de sua idade já avançada e da sua saúde frágil, eu nem pensava na hipótese dela vir a nos deixar naquele mês.

Conversamos por horas. Ela chorou e se emocionou várias vezes e, nesse dia, conheci a pessoa sensível que vivia por detrás da leonina que levava o signo até no nome: Alice Leão. Ela sempre foi a força em pessoa. Deixou uma vida toda pra trás pra viver um amor e era a mulher mais bem resolvida que eu havia conhecido. Pelo menos era o que eu achava até aquele momento.
Então, naquela tarde de sexta-feira, pude concluir que todos nós temos os nossos arrependimentos. Entendi também que podemos viver bem mesmo trazendo na bagagem inúmeras feridas, derrotas e erros.
E, enquanto ela falava, pude perceber o quanto tudo era tão claro pra ela, como se aqueles acontecimentos tivessem ocorrido há poucos dias. Mais de oitenta anos de vida e ela ainda não tinha superado... Como? Eu me indagava.
De repente, então, ela parou. Havia acabado. O silêncio tomou conta de nós. Deixei-a a sós com seus pensamentos até que ela se virou pra mim e sorriu, como se agradecesse.
Ainda com o rosto molhado de lágrimas ergueu a xícara de chá e eu repeti seu movimento. " Brindaremos a liberdade. Hoje me despeço dessa culpa e assumo a responsabilidade pelas minhas escolhas." E saiu da sala quase levitando.
Havia se livrado do peso que carregou por tantos anos e, dias depois, foi em paz.
Disso, ficou apenas a falta que sinto. A saudade do que podíamos ter feito, de tudo que podíamos ter dividido e das tardes que tive oportunidade de ir vê-la e dei prioridade aos meus afazeres.
Vivi muitos meses com a culpa, mas agora a transformei em responsabilidade. E, como minha vó querida, tentarei viver bem, carregando minha coleção de feridas, derrotas e erros.
E, quem sabe, quando eu tiver meus oitenta anos, também possa ter a oportunidade de ser ouvida de verdade e transformar minhas culpas em asas... Nem que seja apenas por uma tarde, uma única tarde ensolarada de sexta-feira.  
Feliz aniversário, vovó!!!

4 comentários:

  1. Conte sempre comigo para te escutar, conversar e Almar. Adoro vc, amiga, comadre e cunhada. Bjos.

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  2. A recíproca é mais que verdadeira. Obrigada querido. Bj

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  3. Que texto lindo, Tati!
    Sugiro "Almar" na próxima edição do Houaiss. Bjo

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    1. Rsrsrsrs. Obrigada Patrícia! Já pensei nisso diversas vezes. Quem sabe um dia, não é? Bj

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