quinta-feira, 2 de julho de 2015

Minha vida de ter que

     Ontem fui a terapia e chorei. Contei ao psicólogo que havia acordado no sábado muito gripada e tinha passado o dia me culpando por não ter disposição pra fazer tudo que precisava fazer. Então, ele me olhou bem e me perguntou que tanto de coisas eram essas. Acho que ele deve ter realmente se arrependido de me questionar sobre os detalhes da minha lista de "things to do", pois acredito que falei sobre ela por, pelo menos, 15 minutos, sem parar.

     Quando me dei por satisfeita, veio a pergunta fatal: existe algo da sua lista que você poderia não ter deixado de fazer naquele dia? Todos os seus compromissos eram inadiáveis? E ficou me olhando fixamente, daquele jeito que os terapeutas fazem quando querem que a gente encontre a verdadeira solução para nossas crises, quando querem que a gente ache aquela resposta que está nas entrelinhas.

     Foram minutos de um silêncio ensurdecedor, mas foi assim que a ficha caiu. Lembrei-me de quando adoeci e passei meses sem conseguir fazer uma lista sequer. Não foi como sábado, que poderia transferir as coisas a fazer para segunda, como ir ao mercado e a livraria, deixar para passear com os meninos no domingo ou adiar a saída com os amigos para o próximo fim de semana.
     Não. Eu percebi que, naquele dia, não me enxerguei como prioridade, não aceitei a fragilidade humana em que me inseria e, novamente, havia entrado na "hipnose da perfeição", onde achava que podia tudo, onde achava que era invencível e insubstituível entre outros pensamentos que me dominavam antes de adoecer. E eu, melhor do que ninguém, sabia o quanto isso não condizia com a realidade.
     Anteriormente, quando estava incapaz de assumir qualquer tipo de responsabilidade, qualquer afazer relacionado ao bom funcionamento da casa ou estar, pelo menos, presente na vida dos meus filhos, não tive nem a capacidade de me sentir culpada por isso. Eu só pensava em ficar bem e rezava, diariamente, para que eu fosse capaz de viver diferente  e fazer tudo melhor. E, mesmo com a minha falta, a casa não caiu, as crianças não repetiram de ano, não faltou comida, roupa, amor...
     E eu? Sobrevivi. Mas ali, frente a um desconhecido, assinava meu atestado de incompetência. Chorei. Como uma criança que não tem medo de demonstrar seus sentimentos e me arrependi de estar retornando aos antigos padrões de conduta que tanto me tiravam do sério.
      E, pra fechar com chave de ouro aquela sessão, ele me disse: "sua vida está muito cheia que ter que...". "Sua mente aprendeu assim, mas você tem o poder de mudar esses padrões antigos". "Como?", perguntei. "Você não aprendeu a andar? Não aprendeu a escrever? Não aprendeu sua profissão? Pois bem, quando há vontade e esforço, tudo é possível!" Ainda muito sensibilizada com aquelas conclusões soltei um "Será?". Ele me olhou bem nos olhos e, ao dizer as seguintes palavras, percebi a presença de Deus: "Tatiana, tenha fé!"...

     Saí de lá revigorada e pronta para tentar, mais uma vez. Amassei a lista de papel que trazia no bolso e passei o dia priorizando a tranquilidade, o amor e a paz interior. 

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