sexta-feira, 10 de julho de 2015

Enxergando o que os olhos não podem ver

Sou dentista e ontem atendi uma moça que devia ter uns quarenta anos de idade. Começamos a falar sobre filhos e rotina e rimos um pouco das coincidências. Logo em seguida, ela disse que seus filhos já estavam grandes e que, a cada dia que passa, precisam menos dela. "É... A gente tem que se preparar. Quando estão menores, vivemos em função deles e quando se vão..." continuei sem concluir.

"Na verdade, a gente tem é que se redescobrir. Temos que construir outra realidade. Temos que olhar pra dentro e perceber que somos uma pessoa que passou muito tempo sem se ver de verdade e que provavelmente, agora, tem outros gostos, outras vontades e outras formas de encontrar a felicidade." Concordei com a cabeça e passei o resto da sessão e do dia pensando no que ela havia me dito.
Tenho muitas pacientes e amigas que têm tido sérios problemas psicológicos com a saída de seus filhos de casa. Aliás, percebo que não só isso, mas mudanças bruscas na realidade, doenças ou alguma perda importante têm tirado o chão de muita gente ou causado, muitas vezes, quase perda total.
E o que é preciso para não se perder de vez? Lembrei-me de que, há alguns anos, eu andava quase enlouquecendo. Bebê recém-nascido, marido desempregado, sem licença à maternidade e com problemas com a moça que trabalhava na minha casa. Tudo estava de pernas pro ar. Digo tudo porque me incluo nessa lista: meus pés estavam na cabeça e a cabeça estava no lugar dos pés, isto é, minha mente só pensava sobre qual seria o próximo passo e eu só ia onde ela mandava, como um robô. Coração, intuição? Estavam esquecidos há muito tempo. E aquele comportamento só foi abrindo portas para outros problemas, não porque eles estavam me perseguindo, mas porque ficamos predispostos a encontrá-los onde não existem.
Uma vez li num livro que, se conseguíssemos simplesmente viver os fatos como são, sem colocar sobre eles avaliações, expectativas ou julgamentos baseados em nossas crenças, o mundo ficaria mais fácil e a cruz mais leve de carregar. Mas quase nunca conseguimos pôr isso em prática, não é?
E, acho que Deus fica nos olhando lá de cima até que decide por um fim na confusão que a gente armou. Então, manda algo que nos toca tão fundo que somos incapazes de prosseguir na nossa desordem emocional: os filhos se vão, perdemos algo ou alguém que nunca imaginaríamos viver sem ou a doença aparece sem pedir licença. Todos esses são despertadores do céu!
Assim, aquilo que nos tirou o chão de repente, nos dá asas e renascemos para mais um recomeço. Lembro a todos, entretanto, que podemos evitar essa dor. Podemos despertar antes de dormir, podemos olhar pra dentro antes que as janelas se fechem, podemos encontrar a felicidade no que não depende de ninguém, além de nós mesmos. É só acreditar!

E, termino pedindo: Deus, nos mantenha atentos e faça com que sejamos capazes de nos reconhecer entre as nossas maiores prioridades. Amém. 

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