Há dois dias minha filha teve outra crise de
asma. Quando decidi que provavelmente não conseguiria controlá-la em casa, já
passava das nove horas da noite. Organizei uma malinha com suas coisas básicas,
pois sabia que, provavelmente, passaria a noite no hospital, como já havia
acontecido duas vezes este ano.
Chamei
meu pai para olhar meu filho menor, coloquei nela uma roupa quentinha e
partimos sós, pois meu marido estava viajando a trabalho. Minha intuição me fez
procurar sua bombinha de aerolin e a coloquei na bolsa, junto à carteirinha do
convênio e sua certidão de nascimento.
Aguardamos
na recepção por meia hora e quando entramos no consultório, ficamos frente a um
médico oriental que beirava os 60 anos. Imaginei que ele poderia ser experiente
e senti até um alívio, que não durou muito tempo...
Depois
de uma conversa breve na qual aquele senhor perguntou qual medicação eu havia
dado a ela em casa por sete vezes, ele decidiu colocá-la no soro e fazer uma
nebulização.
A
enfermeira que nos atendeu errou a veia e, pela primeira vez, em anos, vi minha
filha chorar nesse tipo de procedimento. Isso cortou meu coração, pois ela
sempre foi tão madura e tão calma nessas ocasiões, mesmo com 10 anos, que
deixava todos encantados. Beije-a com carinho, sussurrei em seus ouvidos algo
que não me recordo e ela foi se tranquilizando.
Estava
sentada ao seu lado quando fomos interceptadas com a máscara de inalação já
funcionando e ela se deitou colocando-a no rosto. Sua serenidade readquirida
deu lugar a um desespero sem precedentes, em poucos minutos. Ela simplesmente
não conseguia respirar mais... Pedia minha ajuda com o olhar, ao mesmo tempo em
que tossia, tremia e mudava de cor.
O
médico ficou sem ação, a enfermeira sumiu e eu percebi que precisava agir rápido
e fazer alguma coisa por ela. Lembrei-me da bombinha que havia colocado na
bolsa, corri para alcançá-la e perguntei a ele se podia usá-la, já num tom bem
alterado. Ele balançou a cabeça positivamente, enquanto a auscultava.
Após
o segundo jato, percebi que havia tomado a atitude correta, pois ela parou de
tremer, relaxou a musculatura e conseguiu puxar o ar. Algo estava errado, isso
nunca acontecera antes, a substância proposta para a inalação jamais provocaria
aquele quadro! Olhei pra ele com um ar de revolta e ele me disse que iria aplicar
um corticóide na veia, pois ela estava em crise. Questionei se isso era
realmente necessário e ele confirmou que daria a dose “x”, padronizada para a
idade dela e saiu.
Abracei-a
e tive novamente um insight. Deixei-a por um instante e fui até o balcão para
conferir o preparo da solução que iriam aplicar nela. Foi aí que, indignada,
mandei que removessem o escalpe para que eu pudesse levá-la dali. Iriam aplicar
quase três vezes a dose que o médico havia indicado. A enfermeira ficou sem
graça quando viu seu erro e disse que faria uma nova solução, mas eu havia
perdido totalmente a confiança naquelas pessoas. O médico dizia que isso nunca
havia ocorrido, mas eu, realmente, só queria sair de lá, o mais rápido possível.
Respirei
fundo, peguei em sua mãozinha que ainda tremia e a tirei daquele lugar. Já
passava da meia noite e decidi que voltaríamos pra casa em vez de procurarmos
outro tipo de atendimento: ela estava esgotada.
Passei
numa farmácia de plantão, comprei a medicação que seria usada no momento da confusão
(só que em forma de xarope) e dei a dose usual a ela. Passei o resto da noite
velando seu sono agitado e rezando para que nada de mal acontecesse a ela.
Fui invadida por
pensamentos de todas as espécies imagináveis e pude sentir tudo que tinha
direito. Chorei... Muito...
Conclui
entre toda a dor, raiva, medo, indignação, tristeza e alívio quando o dia
amanheceu, que todos estão conectados e que os problemas dos outros também
pertencem a mim. Pessoas que tem a vida de outras na mão, como médicos e enfermeiros,
muitas vezes, despreparados, desatualizados e cansados, fazem parte da realidade
atual da sociedade e podem ser encontrados a qualquer momento, perambulando
pelos corredores dos prontos-socorros.
Isso é responsabilidade
de todos. É preciso se envolver mais nas mudanças de base, apoiando a
valorização da família e dos professores. É preciso haver mais seriedade na
formação de cidadãos conscientes e responsáveis.
Uma
vida vale muito, principalmente quando se trata de um filho, de nossos pais ou de
nossos companheiros e amigos. A vida PRECISA ser valorizada!
Escrevo
como desabafo. Escrevo como apelo. Escrevo na intenção de começar ou continuar
qualquer ação nesse contexto.
Só sei que a vida de
quem amo vale muito para ser perdida por imperícia, imprudência ou negligência.
Sinto-me
impotente e a tristeza que isso gera não tem medida, não tem explicação...
Tatiana Leão

Nossa, amiga.....fiquei indignada também!!! Tive uma situação parecida com o Enzo...por causa de um exame de fezes, não queriam dar,alta p ele, sendo que ele tinha,ido ao banheiro de manhã.....e como teve vomito s consecutivos depois, fui com ele para o hospital para tomar medicação IV e hidratar. Passamos o dia todo no hospital....ele sem comer direito....como iria defecar??? Tive que comprar uma briga p liberarem ele....pessoas sem noção! Mt revoltante ver tantos cursos na area,de saude, porem , poucos com ensino de qualidade! Espero que a Bia já esteja melhor! Bjinhos!!
ResponderExcluirEstá melhorando, amiga. Saudade de vc! Obrigada por comentar, bjs
ResponderExcluirTati,
ResponderExcluirQue demostração de maturidade a sua!!!!
Mesmo passando por uma situação desesperadora, consegue tomar para si parte da responsabilidade do nosso falido sistema de saúde!!!
Cada vez mais tenho a certeza de que somos UM!
E, por isso mesmo, desejo do mais fundo da minha alma a melhora de sua pequena.
Ja imagino-a curada!!!
Que assim seja!
Amem!
Bjo
Erica.
Eu também a imagino e a quero assim. Obrigada pelo carinho, Érica. Bom fim de semana. Bjs
ExcluirÉ revoltante! O pior é saber que um sem número de pessoas morre em consequência desse tipo de erro e de muitos outros. Graças ao Pai sua Bia está bem agora...Mas quantas mães não têm a mesma sorte...Beijos
ResponderExcluirPensei nisso a noite toda... Bjs
ExcluirRevoltante! Passe inúmeras vezes por situações análogas durante a doença do meu pai (câncer que durou, entre a descoberta e a partida dele, nove meses) e também com o Tom esses dias num hospital do Lago Sul. Menos mal que o guri só tinha um refluxozinho e passou com o Label que tínamos na mala. Bibi está melhor, graças a Deus e você deu uma lição de "mãedade". Amamos muito vocês! Beijos.
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